Editorial
EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA EM TRANSFORMAÇÃO: SOBRE DADOS E O FUTURO DO TRABALHO
Por Dra. Sandra Rodrigues da Silva Chang – Supervisora de Organização e Política Educacional
Encerrado o primeiro quarto do século XXI, a educação profissional e tecnológica encontra-se diante de transformações significativas, impulsionadas por mudanças nas dinâmicas produtivas, tecnológicas e sociais que reconfiguram a sociedade e o mundo do trabalho. Esse contexto exige das instituições de formação profissional um olhar apurado sobre a realidade, bem como condições para antecipar demandas, rever práticas formativas e responder, de modo consistente, aos desafios contemporâneos.
Mais de 100 anos se passaram da publicação do Decreto nº 7.566, de 1909, pelo qual Nilo Peçanha criou as Escolas de Aprendizes e Artífices, mais tarde transformadas em liceus industriais, abrindo caminho à educação profissional voltada à indústria no Brasil. De lá para cá, a indústria brasileira cresceu, diversificou-se e tornou-se mais complexa, e a formação de seus profissionais precisou acompanhar esse movimento. No entanto, algo permanece intocado – a necessidade de olhar ao redor, para além dos próprios muros, e perceber para onde caminha o mundo do trabalho.
Se, em 1909, o referido decreto, em seu artigo 2º, determinava que fossem instaladas oficinas “que forem mais convenientes e necessárias no Estado em que funcionar a escola, consultadas, quando possível, as especialidades das indústrias locais”, hoje, essa necessidade assume um caráter mais amplo. Não basta reconhecer o mundo do trabalho a partir do nosso entorno: é preciso ler seus sinais, antecipar seus movimentos e compreender suas transformações em escala regional e mundial. Em nosso atual contexto, formar para a indústria significa preparar profissionais não apenas para ocupações que existem, mas para outras que ainda se anunciam e para tantas outras que sequer conhecemos, com base em decisões profundamente orientadas por dados, aliadas a um trabalho consistente de incentivo à produção do conhecimento científico aplicado à realidade industrial.
Os dados mais recentes do Future of Jobs Report 2025[1], do Fórum Econômico Mundial, dimensionam parte dessa transformação: a pesquisa, realizada com mais de mil empregadores globais, que representam mais de 14 milhões de trabalhadores em 22 setores de atividade e 55 economias, estima que, até 2030, a criação e o deslocamento de empregos decorrentes da mudança estrutural do mercado de trabalho corresponderão, conjuntamente, a 22% do emprego formal atual. O relatório projeta a criação de novos empregos equivalentes a 14% do emprego total atual, correspondente a 170 milhões de postos de trabalho, e o deslocamento de 8% dos empregos atuais, ou 92 milhões de postos, resultando em um crescimento líquido de 78 milhões de empregos. Tal estudo aponta também uma reconfiguração das competências requeridas para o trabalho: cerca de 39% das competências essenciais dos trabalhadores deverão se transformar até 2030, sendo que IA e big data lideram a lista de habilidades que mais crescem. Destacam-se também habilidades relacionadas a redes e cibersegurança, além da necessidade de alfabetização tecnológica. No âmbito das soft skills, despontam as demandas por pensamento criativo, resiliência, flexibilidade e agilidade, juntamente com curiosidade e aprendizado ao longo da vida. O relatório indica que as ocupações relacionadas à tecnologia estão entre aquelas com o crescimento mais rápido. Além disso, funções relacionadas à transição verde e energética também apresentarão crescimento significativo. As lacunas de competências (skills gaps) constituem a principal barreira à transformação empresarial, apontada por 63% dos empregadores entrevistados.
Diante desse contexto, debater a educação profissional e tecnológica e disseminar os conhecimentos gerados por essa prática, como o SENAI-SP faz há décadas, é fundamental para alinhar a capacitação dos trabalhadores às transformações em curso no setor produtivo. Nesse sentido, a presente edição da Revista Científica do SENAI-SP tem como objetivo promover a disseminação de pesquisas, reflexões e experiências que evidenciam como a educação profissional responde aos desafios e às oportunidades do futuro do trabalho. Estão reunidos aqui artigos produzidos por profissionais que atuam diretamente na educação profissional e tecnológica, que analisam os impactos das mudanças tecnológicas, sociais e econômicas sobre o trabalho, bem como os caminhos percorridos para adaptar práticas, promover inovação e antecipar respostas às mudanças em curso.
Que a leitura destes artigos possa suscitar não apenas reflexão, mas também movimento, contribuindo para o aprimoramento de nossas práticas e para o fortalecimento do diálogo entre educação, ciência, tecnologia e indústria, reafirmando a educação profissional e tecnológica como espaço de inovação e transformação social e como protagonista na construção do futuro que almejamos.
[1] WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. Geneva: World Economic Forum, 2025. Disponível em: https://www.weforum.org/publications/the-future-of-jobs-report-2025/. Acesso em: 10 jul. 2026.
Apresentação dos Editores do Dossiê Temático Inovação e Parceria na Educação Profissional: conexões entre Teoria, Prática e Mercado de Trabalho
Discutir sobre o Ensino Profissionalizante no Brasil implica abordar sobre a virada social positiva para as forças produtivas nacionais e para todos os atores envolvidos nesse contexto.
É por meio da natureza inovadora da Educação Profissional, que se estende do Ensino Técnico à Graduação e à Pós-Graduação, que os estudantes têm a oportunidade de construir conhecimentos, desenvolver competências e consolidar um saber-fazer especializado em diferentes áreas tecnológicas. Essa trajetória formativa articula conhecimentos teóricos e práticas profissionais, favorecendo não apenas a inserção no mercado de trabalho, mas também o desenvolvimento contínuo dos profissionais e sua capacidade de responder aos desafios da sociedade contemporânea. Nessa missão, o Centro Universitário SENAI São Paulo e a Gerência de Educação do SENAI-SP, inspirada nesses pilares éticos e guiada pela excelência da qualidade por meio da Metodologia SENAI de Educação Profissional, convidou a comunidade para compartilhar experiências e reflexões de práticas pedagógicas e de princípios que orientam a formação de nossos alunos.
Esperamos que as leituras deste dossiê inspirem reflexões, diálogos e novos olhares sobre a formação profissional, contribuindo para o fortalecimento de práticas educativas cada vez mais significativas e transformadoras.
Villy Creuz
Violeta Adelita Ribeiro Sutili
Bianca Siqueira Martins Domingos